Contra ‘coronéis’ e megaprojetos
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) reuniu cerca de noventa representantes de organizações não-governamentais e movimentos sociais do Nordeste para discutir grandes obras que estão em curso ou que deverão atingir a região em breve.
A transposição do Rio São Francisco, a instalação de usinas nucleares no litoral nordestino, a construção da Transnordestina e a implantação de termoelétricas a carvão mineral no Ceará e Rio Grande do Norte são alguns dos temas que foram debatidos durante dois dias, no auditório da Universidade Federal do Ceará (UFC), com o apoio da Fundação Heinrich Boell.
O seminário regional, que contou com militantes vindos da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão, é parte da estratégia de novas articulações do MAB e ampliação do seu movimento. Segundo os organizadores do evento, “neste momento histórico em que as questões da energia e da água estão em pauta no cenário mundial, é de grande importância debatermos o que está sendo planejado e feito sobre o assunto no Brasil”.
O coordenador do MAB, Luiz Dalla Costa, iniciou os trabalhos com um relato sobre as conclusões obtidas em seminários similares anteriores, realizados em outras partes do país. Contou que um dos objetivos dessas discussões é entender a lógica que está por trás da indústria da geração, transmissão e distribuição de eletricidade. Quem está no comando dessas empresas, que interesses estão envolvidos, quem são os beneficiados pelos planos propostos e, principalmente, como enfrentá-los?
Magnólia Said, do ESPLAR – Centro de Pesquisa e Assessoria, fez uma breve, porém contundente, explanação sobre a atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no setor energético. Citou diversos projetos polêmicos em que o banco governamental está envolvido (como é o caso das hidrelétricas do Rio Madeira) e demonstrou como ele tem atuado sem nenhum controle da população brasileira no financiamento de empreendimentos que destroem o meio ambiente e causam impactos sociais negativos, tanto no território nacional, quanto em países da América Latina e África.
O consultor da Fundação Heinrich Boell, Sérgio Dialetachi, apresentou os planos do Governo Lula para a área nuclear, com a abertura de novas minas de urânio no Ceará e Pará, implantação de uma central nuclear no litoral nordestino, ampliação das unidades de enriquecimento do urânio e fabricação de combustível, instalação de depósitos para o lixo atômico, construção de mais um reator experimental, além de todo o investimento para a construção do submarino nuclear e sua base operacional. “A aventura nuclear brasileira já custou mais de oitenta bilhões de reais e, no entanto, a capacidade dessas usinas não passa de 2% da potência instalada no país. Agora, o governo anuncia que vai jogar outros tantos bilhões de reais na continuidade dessa insanidade cara, ultrapassada, insegura e suja”, comentou Dialetachi.
Fez parte do seminário, um acalorado debate sobre a transposição do Rio São Francisco, com a participação do professor João Abner, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), professores da UFC, representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) e integrantes do MAB.
Como resultados do encontro, ficaram as decisões de mapear quais são os grandes empreendimentos privados e públicos na região, identificar que impactos causam e quem são os afetados, bem como listar quem são os interessados beneficiados e quem os financia. Em contrapartida, também será feito um levantamento no Nordeste para ressaltar iniciativas de resistência a essas investidas, seus métodos de luta, que resultados alcançaram e como se articulam com o restante da sociedade civil.
Ficou nos participantes a ciência de que demandará muito trabalho deter esse “desenvolvimentismo” voraz e insustentável, que não satisfaz às necessidades básicas da nossa população e destrói as nossas riquezas naturais. Por outro lado, consolidou-se a certeza de que a construção de um Brasil popular e solidário é plenamente possível.
Para maiores informações:
Movimento dos Atingidos por Barragens (www.mabnacional.org.br)
(85) 8667.2787 com Iury
(11) 3392.2660 com Luis Dalla Costa
Fundação Heinrich Boell (www.boell.org.br)
(21) 3221.9900 com Sabrina Petry